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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O Mágico Ano de 2010


Há, em 2010, um sabor de coisas infaustas: os que, como eu, disto se cansaram, sabem do sabor mágico das datas e dos sinais. Recuemos uma centúria, e algumas décadas mais, e o Portugal descrito pelos nossos maiores, intelectuais, escritores e artistas, lamentava, tal como hoje, o destino da outrora gloriosa nau, já naqueles tempos à deriva. Portugal, a mais velha Nação, que era Estado, da Europa, divagava entre os estertores da crise interna e o menosprezo dos vizinhos próximos. Há, no fundo de cada um de nós, daqueles que, visionários, muitas vezes se transmutam em velhos do restelo, uma suspeita da alma pátria, uma coisa que não se aprende, nem esquece, mas cuja doença se sente, mal ela agoniza.
Sou dos que nasceram Portugueses, mas os meus costados são Europeus, e os meus horizontes mais longe começam, no Mundo, e vão muito além do Universo. Gosto do meu promontório solitário, e reservo-me o direito de o frequentar. A minha alma hierarquizou o Tempo de forma pétrea, e sou invulnerável às medíocres sereias dos ventos do Agora. Não respeito nada que não me fascine, e nada me fascina, nas miseráveis horas que correm.
No outro século, que a Hora quis que se extinguisse, a menoridade dos meus conterrâneos rastejava, em redor de voláteis migalhas, teias de minúsculos interesses e da sordidez valetudinária da vizinhança acomodada. Reinava o Rotativismo, e, acima do Rotativismo, havia filhos e netos de Príncipes Alemães, louros e de pele clara, olhos perdidos no Infinito, que seguravam o leme da Terra Portuguesa. Muito abaixo, a lama de coisas secretas, cujos nomes evoco, pela força do exorcismo, aglutinavam-se em Carbonárias e Maçonarias, filhas e enteadas de corpos estranhos ao nosso pensar. Foram elas que destruíram as nossas fronteiras e assassinaram dois homens, de forma cobarde e panfletária, só pelo gosto de terem os rostos nas primeiras páginas dos pasquins da época. Nunca o insulto desceu tão baixo, nem a soberba dos medíocres ousou sonhar tão alto.
Com o Regicídio, o Rotativismo estendeu-se à Cabeça Decapitada do Estado, com uma Coroa a rolar em sangue, como em "Macbeth". A História, com a sua couraça de fábulas, tem evitado olhar de frente para essa geração de gentes macabras, que se reproduziu, instalou, e levou, depois, ao colapso da nossa Democracia e do nosso Regime Parlamentar, velho e alçado a pulso, nos inícios do séc. XIX. A "República" Portuguesa, um clube de alguns, ao serviço de muito poucos, lançou-nos numa Ditadura vergonhosa, que nos grafou o ferrete de décadas de atraso e de afastamento da nossa matriz, Europeia, Civilizada e Ocidental. Durante essas trevas, morreu, em Londres, um bibliófilo, que amava a sua Pátria, mas se recusou sempre a reclamar direitos, enquanto vivesse essa gente que o humilhara. Teria sido um excelente e pacífico Chefe de Estado, mas escolheu uma Biblioteca, como exílio, e o seu nome era Manuel.
O que as armas fizeram cair outras armas restituíram, numa madrugada, sem sangue e enorme fervor. Ficámos-lhes gratos. Os Portugueses sonharam, então, com o seu novo lugar na História, mas esqueceram-se de que a Corja apenas esperava a nova folga para se reentranhar, e reentranhou-se, de forma ainda mais sórdida e pérfida do que antes pudera ousar.
Todos conhecemos, hoje, os seus nomes, as suas conexões, e a paralisia que caracteriza o Novo Rotativismo. A solução de Portugal claramente já não passa agora pela alternância dos Partidos mancomunados, e é chegado, passados 100 anos sobre um "fait-divers" da moda de então, que se faça o que fizeram os nossos irmãos Brasileiros, aquando da restauração dos seus plenos direitos democráticos: não se lhes perguntou apenas se queriam uma liberdade igual à liberdade dos outros povos, mas se também concordavam com aquele mal esclarecido estremeção histórico, que lançara o excelente Pedro II para o exílio, ou se talvez achassem que tinha havido aí mais uma injustiça da sobressaltada história de Vera Cruz.
Os Brasileiros optaram pela República, mas tiveram, nesse tempo, o direito de responder se poderiam ter optado pelo Império, e muitos houve que ainda se lembravam da benevolência do Império e dos tempos de um grande Monarca Iluminado.
Na consciência dos Portugueses, o Regime está em agonia, e já não passa, nem pode passar, pelo Rotativismo. O Estado de Direito, cuja definição é a paridade do Cidadão perante a Lei, não funciona entre nós, porque, no Portugal presente as leis são descaradamente forjadas para cidadãos que continuam a achar que lhes está nas mãos o espezinhar dos direitos de outros cidadãos. E é esse poder que passa de Governo para Governo, e há, no ar dos dias presentes, a permanente suspeita de uma inevitabilidade dessa continuidade passiva da corrupção.
Este Regime precisa de um sério aviso, e já esgotámos os recursos pacíficos, as alternâncias, as coligações, as maiorias absolutas e relativas, as iniciativas presidenciais. À deriva, sentimos que existe uma vergonhosa e invencível podridão transversal a um punhado de maus Portugueses, que prejudica, em todas as suas vertentes, Económica, Financeira e Cultural, a massa dos restantes impotentes.
Para que se cumpra a Democracia, falta-nos, pois, o Plebiscito, ou o Referendo sobre o Regime, onde se possa dizer "Não", ao despudor instalado.
Este é o texto de um não Monárquico, que sabe que, em 2010, é chegada a hora de os Portugueses poderem fazer vacilar o Sistema, questionando-o no que de mais suspeito tem na sua base: a inevitabilidade de sermos uma República... uma "República" dos interesses de alguns. Este texto é, assim, um texto inaugural, que se destina àqueles que não recuarão perante fazer desencadear os processos para que os Portugueses, em 2010, sejam ouvidos sobre 100 anos de sistemático desastre. A História exige que apaziguemos a nossa consciência, e que, por fim, tenhamos um momento em que possamos dizer, muito claramente, que até sabemos onde se alojam os que minaram o nosso passado, o nosso presente, e se julgam senhores, para sempre, do nosso futuro.
Em favor do Plebiscito, e tão só em favor dele, deve ler-se o atrás escrito. Obrigado.

5 commentaires:

Xaviota disse...

Isto hoje é à séria. Que seja.
Acho sempre fantástico e não estou a ser irónico (juro), que alguém proponha coisas novas para varrer as teias de aranha e a poalha que se vão acumulando ao longo de eras. A renovação é algo da natureza, embora a sociedade humana, talvez por mesquinhez, quase nunca reconheça essa evidência universal. O poder dos "sacerdotes" sobre os cidadãos é quase total, razão porque fico fascinado quando alguém faz abanar o "sistema". Chamei "sacerdotes" aos fazedores do pensamento, aos donos das verdades, aos gebos que se babam com o poder que detêm sobre os outros.
Vejamos um exemplo (pedagógico):
Como levar a sério um imbecil que acredita na virgem de Fátima e quer fazer passar a ideia de que é inteligente? Claro que não é possível, mas o pior de tudo são os que, não acreditando, não denunciam o embuste, porque é estrategicamente incorrecto e, assim sendo, vão dizendo que cada um acredita nas suas convicções, que ninguém é detentor da verdade absoluta e outros disparates ainda piores. E, desta forma, vai-se perpetuando a mentira com todo o manancial de monstruosidades que dela decorrem. É assim, Luís, que de mentira em mentira construímos um enorme "faz de conta" que deverá desabar qualquer dia, qualquer ano.
Achei fantástica a sua iniciativa. Bem haja.

Salazar disse...

É tempo de apertar com esta escumalha que tem andado a dar cabo de Portugal, sob o pretexto do politicamente correcto. Politicamente correcto seria nunca terem nascido

Luís Alves da Costa disse...

Caro Xaviota, a melhor maneira de lhes pregarmos um valente susto é mostrar-lhes que são um Império de Pés de Barro, coisa que já vinha na Bíblia, esse manual de maus costumes, e tenho a pequena suspeita de que vem aí um sério aviso :-)

Semiramis disse...

Vem aí trovoada :-))))))

Arrebenta disse...

É um excelente modo de os assustar, e civilizadamente
:-)

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