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domingo, 20 de dezembro de 2009
sábado, 19 de dezembro de 2009
domingo, 13 de dezembro de 2009
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
11 de Dezembro de 2009: No 101º Aniversário de Manoel de Oliveira, "A Agustinha tinha tinha"

Se há coisa que nunca me fez falta no quotidiano foi Manoel de Oliveira.
Fez-me tão pouca falta que nunca lhe dediquei uma única linha, para além daquela célebre frase, explicativa, em que o Cesariny, que o Demo tenha, justificava o Oliveira e a maior parte da "Cinematografia" Portuguesa, e passo a parafrasear essa nossa conversa nocturna: "Sabes, isso do Manoel de Oliveira é uma invenção dos Franceses, que tinham a Cinematografia mais chata da Europa, de maneira que tiveram de criar uma mais chata ainda, para não serem os piores (sic.)"
Creio que está aqui tudo dito.
De Manoel de Oliveira só vi os bocados do costume, antes de virar a cara para o lado, a bocejar, porque me lembro sempre daquela frase de Goethe, que nos dizia para não perdermos tempo com nada que não fosse a excelência. Hoje, no início do séc. XXI, o rol de coisas boas é já tão vasto que não há tempo para quaisquer manoeis de oliveira, e quem diz Manoel de Oliveira, imediatamente pensa naquele bolor da Língua, chamada Agustina, ilustre amassadora de pães balofos do tempo do Camilo, 150 anos atrasada, mais coisa, menos coisa.
À falta de melhor, e porque hoje o Manoel faz 100 Anos, cá chapo com um inédito, onde trato a senhora tal qual a penso e sinto. Não, não se preocupem, é coisa antiga, e saiu de um jacto: perdi pouco tempo, e creio ter resumido a coisa de forma sincera.
Só o meu velho amigo Correia Tavares, eterno Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, abanava a cabeça, e dizia, "ó, Luís, como é que uma pessoa com o seu talento gasta tantas energias a perder tempo com coisas que não merecem nada disso?..."
Enganava-se. A energia era pouca: nem uma hora gastei na rajada... :-)
Ah, já me esquecia: quem não gostar que se deite ao lado, porque a Cultura é mesmo assim.
A AGUSTINHA TINHA TINHA
A Agustina parece um bode.
A Agustina é o macaco mau da Literatura Portuguesa,
o contrapeso feio,
p'ra ali espetado nas costas da Prosa,
a balança de pesar vacas do matadouro selado,
a trezentos quilos das grandes chocas mexicanas,
o granito das toneladas do parágrafo cozinhado além-Douro,
o dinamómetro das quatro arrobas batatais,
a castelã do Castelo do Queijo,
a sujidade feia das vielas do Porto escuro,
o Encardido, o Mofo das Entrelinhas,
o cheiro secular daquela campa de bispo incorrupto,
-- Jesus, trezentos anos de tão pacata fermentação!... --,
a balança de pesar vacas do matadouro selado,
a trezentos quilos das grandes chocas mexicanas,
o granito das toneladas do parágrafo cozinhado além-Douro,
o dinamómetro das quatro arrobas batatais,
a castelã do Castelo do Queijo,
a sujidade feia das vielas do Porto escuro,
o Encardido, o Mofo das Entrelinhas,
o cheiro secular daquela campa de bispo incorrupto,
-- Jesus, trezentos anos de tão pacata fermentação!... --,
a poeirada milenar de uma mastaba final,
o cheiro a ranço das mulheres que sempre viveram enroladas num cobertor, até ao dia em que se lembraram de o pôr ao sol.
A Agustina é um pavor.
A Agustina tresanda a fénico.
A Agustina está sempre húmida.
A Agustina é a Canção Diante de uma Porta Fechada,
o excesso de ureia de um hospital do mais falido.
A Agustina é um espanto,
A Agustina é um pavor.
A Agustina tresanda a fénico.
A Agustina está sempre húmida.
A Agustina é a Canção Diante de uma Porta Fechada,
o excesso de ureia de um hospital do mais falido.
A Agustina é um espanto,
o espantalho da própria genialidade,
aquela que nunca ninguém pensou assim o Portugal profundo,
benzó-deus!...
A Agustina é a provinciana talhada a jeito para a média,
a Juno dos remediados,
o peso viciado das vendedoras da praça,
daqueles dois quilitos de cerejas,
bem pesados,
aquela que nunca ninguém pensou assim o Portugal profundo,
benzó-deus!...
A Agustina é a provinciana talhada a jeito para a média,
a Juno dos remediados,
o peso viciado das vendedoras da praça,
daqueles dois quilitos de cerejas,
bem pesados,
a oitocentos gramas mal medidos.
A Agustina é a intelectualidade de Grau 10 da Escala de Mohs,
a avançadíssima calcificação do útero da minha pobre tia solteirona.
A Agustina é a intelectualidade de Grau 10 da Escala de Mohs,
a avançadíssima calcificação do útero da minha pobre tia solteirona.
A Agustina é Visigótica, Ostrogótica e Perdigótica,
Sueva, suína, -- e também soez!...
A Agustina é o Paiva Couceiro,
o papel reciclado,
a pilha vagamente recarregada,
a fossa fétida do tratamento d'águas porcas,
que já deram volta ao mundo inteiro!...
A Agustina é o vidrão,
o papelão,
o plasticão,
a camisola boa da avó,
qu'gora já só serve p'ra embrulhar
o gato do netinho.
A Agustina é o fato coçado,
a meia cheia de malhas,
a cinta mal remendada,
as joalheiras dos pantallons,
que já nem se podem enfiar.
A Agustina é uma testemá de Jeovunha,
uma beata que desatou a escrever,
uma mera ateia,
postada no genuflexório da Propaganda
desta época
toda suja,
a bússola curta da Cultura,
a nortear-se, sempre,
p'lo maior Obscurantismo.
A Agustina é o Mar de Sargaços do Texto,
o Caminho de Santiago da Chateação,
do sim, senhor doutor, é p'ra já,
Sueva, suína, -- e também soez!...
A Agustina é o Paiva Couceiro,
o papel reciclado,
a pilha vagamente recarregada,
a fossa fétida do tratamento d'águas porcas,
que já deram volta ao mundo inteiro!...
A Agustina é o vidrão,
o papelão,
o plasticão,
a camisola boa da avó,
qu'gora já só serve p'ra embrulhar
o gato do netinho.
A Agustina é o fato coçado,
a meia cheia de malhas,
a cinta mal remendada,
as joalheiras dos pantallons,
que já nem se podem enfiar.
A Agustina é uma testemá de Jeovunha,
uma beata que desatou a escrever,
uma mera ateia,
postada no genuflexório da Propaganda
desta época
toda suja,
a bússola curta da Cultura,
a nortear-se, sempre,
p'lo maior Obscurantismo.
A Agustina é o Mar de Sargaços do Texto,
o Caminho de Santiago da Chateação,
do sim, senhor doutor, é p'ra já,
-- 'TÁ-SE MÊ'MO A VER!...
A Agustina é a nem morta sai dali,
a perpétua página da selecta d'antevéspera,
a monótona insistência determinística
de um país às três pancadas,
a chatice de se haver de estar casado
co'a própria sombra!...
A Agustina é o creme de escanhoar,
a pinça,
o rapa-pêlos,
o after-shave
e a navalha bota da mulher de barba
do circo que já passou.
À Agustina sucede sempre o acidente
de se pensar no sexo da prosa,
que nunca deveria ter sexo,
mas co'ela tem sempre,
afinal,
e está sempre mal,
porque a Agustina é o andrógino da Língua,
a lésbica por procuração,
o requentado pronome másculo
de gostar à brava de escrever co'a piça,
a Hermafrodita do cérebro viril,
enfiado à martelada,
a rija pensadora de pensamentos masculinos,
a erecta fénix do phalus,
a que haverei de fazer eu,
sem este pénis?....
E quando ela diz que,
se usasse chapéu alto,
que até deveria usar,
-- A CABRA!... --,
o haveria de tirar,
com rasgado gesto,
ao doutor Lobo Antunes filho,
a mim só me dá pena
de que ela,
de facto,
ainda não o tenha,
para eu lho poder enfiar
p'la cachola
abaixo!...
Porque a Agustina dá-me cabo dos nervos,
de só me vir à ideia
um ininterrupto comboio,
há mais de quarenta anos
a andar a empatar
a passagem de nível
destas pobres gentes enganadas!...
A Agustina é a aguenta-m'aí-os-cavalos
de se querer continuar a refocilar
no sol roubado aos outros!...
A Agustina é a que se anda a encher,
e bem, à conta disto,
o lucro indevido,
a promoção por Decreto-
-Lei dos famigerados Anos Cinquenta,
o poeta da Portaria
de um país extinto na Guerra Fria,
o nepotismo do Verbo,
a continuada cunha da Escrita!...
A Agustina será p’ra sempre
aquelas palavras perenes
do secundário Régio,
esquecidíssimo,
-- olha lá,
quem era o Régio,
afinal?...--
a dizer que ela haveria de
estar sempre na primeira linha
dos contemporâneos
contra quem escrevesse...
-- contra quem?...
Mas na primeira linha do quê,
e de que contemporâneos?...,
-- ó, Deus meu,
que cambada tão grande
de saloios!...
A Agustina não passa da minha vontade enorme
de lhe pregar um par de coices,
daquela que, sempre que lhe sair um livro,
será como ter-me desejado um gato preto
a passar à frente!...
A Agustina bem precisava era de uma trela,
mas não há quem lha possa pôr,
porque a Agustina é a esfaimada do açaimo.
a que canta de galo,
com tremenda voz de galinha,
num país de palhaços instalados!...
A Agustina é o derradeiro murmúrio
do som difuso, e entorpecedor,
de querer pôr a fazer ó-ó
a vontade de qualquer
estrondo viril!...
A Agustina é tóxica, tóssica e páucica,
um enorme abade carraspento,
cheio de mitenes,
-- queira lá isso dizer o que disser!...
A Agustina é um charco de azeite,
deitado sobre as ondas
de uma funda maré tolhida,
a deixa sempre para amanhã tudo o que puderes fazer hoje!...
A Agustina é uma pobre quinta abandonada,
a Lesma Linguística,
o Latifúndio Labial,
a prosa meã da boca do charroco,
o musgo das fissuras de um canteiro sem luz,
a estação fria da meia aurora,
o pirolito d'infância da minha avó,
-- coitada, que nem sequer a lia!... --,
A Agustina é a cave, a adega,
e a bodega,
a madrigueira da salamandra bafienta.
A Agustina é o eterno peão do lusco-fusco,
a sempre delicodoce,
a sopa fria do insonso da pior constipação.
A Agustina é o próprio Século do Romantismo,
-- que cá nem sequer chegou a haver!... --,
mas agora já bem cerzido e recosido,
p'ra ver s'aguentava mais um milénio,
a Joalheiras d'Almeida Garrett,
a Meias-Solas-Para-Durar-Outros-Cinco-Anos,
a Feliciana de Castilho do meio atilho,
a Casaco de Serviço de três gerações pequeno-
-burguesotas!...
A Agustina é a Escolástica morta de trezentos anos,
em que já só chegámos a ser bons
em meados do Século Dezassete!...
A Agustina é o Rotativismo
da Literatura.
O que seria da Agustina,
se Portugal se tornasse agora europeu?...
Longos Dias Têm Cem Anos,
pois têm,
porque a Agustina já por aqui não anda,
e limita-se a deslizar,
e não deslizar,
a comprazer-se com rodar,
em lubrificadas engrenagenzinhas
de ver se ninguém cá dá por ela,
e lá vai, lá vai,
a matreira,
toda de vento em popa,
em derivas de serena eternidade,
não fosse eu desatar
a escrever aqui contra ela,
-- estás-me a ouvir,
ó minha suburbana senhora d'ópio,
d'engessadas Trompas de Falópio,
meu tampão de aço da modernidade,
minha ilha em pleno continente,
meu veneno insidioso, e lento,
de bem saberes poder esperar cem anos
por uma presumível vitória tua!...
Que nunca a terás,
porque és pior do qu'a MAÇADA ASSADA
de Sir Isaac Newton,
és o próprio peso pesado da Ponderação,
o aforismo à bruta do hás-de ter aqui um enfarte,
uma congestão,
o lugar arrastadíssimo de todas as palavras rimadas em ão,
do feio próprio que o Português tem dos seus inhos, inhos
e che, che, ches,
de locomotivas em matinais diálogos de partida!...
Porque tu és o basalto da calçada,
o calhau pesado,
o matacão,
o seixo muito bem rolado,
a gravilha espalhada p'los passeios da ruela,
sempre a Fazer-De-Pedra-Para-O-Que-Der-E-Vier,
a palavra lapidar,
à espera de uma Eternidade moderada,
-- A ETERNIDADE DA CHATICE,
claro está!... –
Porque tu és o borzeguim,
o chumbo do anzol,
o pisa-papéis,
o cilindro compressor de sílabas,
o pilão d'almofariz
de uma libidinosa Senhora da Frigidez,
a Língua-de-Trapos,
o Cinto de Castidade da própria Fluência,
o óleo pesado das locomotivas trans-siberianas,
a Sibila complicada
dos lugares mais comuns!...
A Agustina é o mamute, a baleia, o mastodonte da alínea cifrada,
o paquiderme da insonação,
a crisálida das sílabas,
a sonoridade vaginal
do ditongo mais arrastado,
do vocábulo já caído em desuso,
era ela 'inda criancinha,
-- que também teve tempo de o ser,
quem o diria agora!... --,
e já essa palavra se não usava,
-- ó minha eterna pequenina,
mas trabalhadeira,
meu pantógrafo oleado,
sempre enfiado p'lo Camilo adentro,
p'ra continuares a ter a audácia
de escrever assim,
no desasado fim deste Século Vinte,
nossa época mais negra
da Humanidade!...
Porque tu és a favela da Prosa,
o quisto sebáceo,
o mioma dançante,
a herpes do tímpano,
o tumor branco,
a lepra azul e
a gangrena cinzenta
de todas as páginas impressas em vão,
que nunca haverão de servir
p'ra qualquer exportação,
e, de cada vez que oiço falar
em traduzIR-TE,
só me vem à ideia papel estragado,
e terríveis compadrios d'além-fronteiras,
porque terá sempre de haver,
algures,
uma outra velha como tu,
enrolada nos cobertores traçados
de uma porca espelunca londrina!...
Porque o mal da Agustina é pensar-se logo no Norte,
cousa pouca, num imaginário nacional,
de medíocre recanto peninsular,
microscopicamente sentido na Europa,
como nome exótico de um espectral girar do Orbe,
-- ó inexistente criatura,
da mais alta esfera das estrelas!...,
a quem deu a terrível doença dos artistas,
de se tornarem em parcos bordados regionais,
para as americanas poderem
enfiar no saco roto
das suas fotografias fabricadas no Japão!...
Mas as americanas nem sequer sabem dessa Agustina,
-- graças a Deus!... --,
estimável escritora da genuína Louisiana,
on Oporto-upon-Mississipi,
que os netos enfiaram um dia no contentor,
em tarde de limpeza geral,
-- Jesus, quantos anos já lá vão!...
A prosa da Agustina é um novelo
de lugares-comuns,
de aforismos sem sentido,
postos p'ra ali
só p'lo simples prazer da forma.
A Agustina é aquela masoquista tendência
que o português rafeiro
tem de achar bom
tudo aquilo que não entende,
porque a escrita da Agustina não passa
de um montão de lâminas usadas,
o próprio lampião fosco
da retórica meio-translúcida,
e lúcida,
do mercado ilícito,
do é pegar ou largar,
dum presente mal menor!...
A Agustina é o Alves dos Reis da versificação,
o calvinismo dos versos brancos,
a rima pobre da Foz.
Cuidado, porém,
que a bicha é velhaquinha,
e sabedora dela toda,
a própria orca assassina dos paninhos frios,
-- ó, tu, minha manhosa senhora d'avenidas tripeiras,
minha minuciosa miserável da Astúcia,
meu adorado Sargento-Mor das vírgulas,
genuíno compasso de embrutecedora espera,
entre dois vigorosos murros de pugilato,
ó meu verdadeiro boxeur paragráfico
de uma Guarda Nacional Republicana
de prosas p'ró vigiado!...
A Agustina é o Rei das Berlengas,
a Rainha da Brutópia,
aquela que dizia que
a pátria dela
haveria de vir a ser a Míngua Portuguesa,
mas a Agustina já não passa de um pneu furado,
da menopausa mal disfarçada
de pegajoso sumo de tomate!...
A Agustina parece uma almôndega,
a broa de Avintes,
um torrão de Alicante
impossível de triturar,
a sola cozinhada,
o bife duro de arrancar dentes,
o miolo encontrado na pirâmide,
a borracha mastigada do dia a dia,
a côdea serôdia,
a fora de horas,
do chá das cinco servido às sete,
a pêra podre,
-- qu'eles pensavam só estar madurinha!...,
o tabaco de mascar da velha fedorenta,
o Vaugham Williams da Literatura,
o pot pourri,
o hamburguer comido frio,
o torresmo da antevéspera,
o rebento de soja da dieta descarnada,
a sopa de pedra deixada ao relento,
o puré de batata da minha Tia Maria Alice,
-- mas quando o voltava a enfiar,
em vomitado,
p'la boca dos filhos dela!... --,
o cozido-à-portuguesa maneirinho,
dos mais imundos pratos espanhóis,
de feijoadas de peixe,
atamancadas com umas quantas
favas e amêijoas!...A Agustina é a anafada do pão balofo,
a capa-gatos,
o morrer c'um osso de galinha atravessado na garganta,
o erotismo dos carapaus servidos frios,
o tirar a tusa a qualquer um,
o enorme plâncton da Moralidade.
A Agustina é a semi-divina
dos Trabalhos de Hércules de a terem de continuar a ler,
numa continuada chatice de final de ano!...
A Agustina é uma bisarma,
um canhão,
um bacamarte.
A Agustina é lusitana e, ainda por cima,
lá de chima!...
A Agustina é aquela atávica complacência
com que lá fora nos continuam a encarar:
-- "escritora portuguesa""?!...
Ah, sim, estou a ver,
coitadinhos, também precisam!... --,
Porque a Agustina é o Flaubert nacional,
mas depois de uns bons cem anos de coerciva decantação pacata,
quando já o próprio Flaubert se tornara num Dostoievsky de pacotilha,
e o Dostoievsky, numa espécie de Shakespeare feito só de sombras,
e o Shakespeare, num outro Virgílio de Seiscentos,
e o Virgílio, num imortal Homero,
p'ra ali renascido em verso latino,
mas, para que é que servia tudo isso,
se -- graças a Deus!...--,
também já temos agora
uma Agustina de Cinfães,
senhora literata do remendo,
e celebrada bordadora de merendas,
A Agustina é um pastel de nata.
A Agustina é um bolo de arroz.
A Agustina é o pão-de-ló encharcadito,
a açorda azeitada d'Entre-Douro e Minho,
o rolo de carne,
servido na época natalícia,
com uma maçã bichadota
enfiada p'las ventas dentro!...
A Agustina é um chouriço de sangue anémico,
um paio de vinho sem álcool,
uma cerveja,
mas bebida bem quentinha,
a toma lá mais este bocadão,
da mesa enfarta-brutos,
o prato forte da rigorosa ementa do Masoquismo.
A Agustina é uma palmilha,
a botinha ortopédica,
o elástico da reabilitação,
a massagem diária da entrevadinha,
a perna-de-pau do nunca mais haverás de correr!...
A Agustina é o buldogue da Prosa.
A Agustina é um papa-moscas.
A Agustina é Deus-Pai,
já tornado mãe.
A Agustina é o sabão amarelo,
o abafador caseiro
do crime de Caselas,
A FORCA DA GRAVIDADE,
a história edificante de gelar a espinha a qualquer um.
A Agustina é a triste sina
de gostar muito de se ouvir sozinha.
A Agustina é o seu próprio autor preferido,
a melhor partidária de si mesma,
a mãozinha sempre a puxar para o auto-retrato,
o pendor foleiro para a auto-contemplação.
A Agustina está sempre ao espelho,
de frente, de lado, e a três quartos,
-- E eu a querer tanto
vê-la p'las costas!...
A Agustina é o alicerce,
de pedra e cal,
lá postado para durar.
A Agustina é a raiz do dente furado.
A Agustina já só está
ali p'ra aquilo,
e nunca mais irá de lá sair!...
A Agustina é o Salazar da Língua,
o Botas da prosa sempre posta em dia,
o Vacão de Catalazete,
antes de cair da cadeirinha,
-- louvada seja!... --,
ai deste novo
Meão de Santa Comba Dão, dos livritos bem contados,
da nós cá somos mais modestos da Literatura,
daquela razão da minha força que era a força enorme de uma espantosa falta de Razão,
e de gosto,
sim, senhor,
sobretudo de uma mirabolante FALTA DE GOSTO,
-- ó minha contemporânea Grécia do Feio,
de quem tu, Agustina,
me saíste a maior Padroeira!...
A Agustina é bojuda,
anafada, rotunda
e rubicunda.
A Agustina é p'ró cheiinho,
a própria cabacita da Prosa,
o pisado melão da esquina.
A Agustina é um pimenteiro de rodas baixas.
A Agustina tem a graça de um polícia pançudo
e reformado,
a alegria do eléctrico, velhinho,
que lá foram buscar no dia da solenidade.
A Agustina é o sobrinho pesadote,
que resolveu casar aos quarent'anos.
A Agustina é a trombose da Língua.
A Agustina não sabe ler nem escrever.
A Agustina é a tabuada, a reguada, a palmatoada,
a cábula desbocada da saloia que veio p'ra aqui servir.
A Agustina é a somítica governanta do Relato,
o mordomo culpado de andar a coçar para dentro.
A Agustina tem um coágulo na linha,
uma pedra entalada na fluência do contar.
A Agustina é o troley da banalidade
o funcionário prosador,
o quadro excedente,
chegado ao topo da carreira pela antiguidade do seu
sim, senhor, com certeza. Desejará, por acaso, mais alguma coisinha?...,
-- Ó SERVIL, Ó SERVA INÚTIL
DE UM PODER
COMPLETAMENTE
DESBOCADO!... --,
Minha consolação nocturna do Estafermo-Mor,
meu Segundo Império da tardinha fria de Sedan,
minha colaboracionista do Reino das ervilhas,
meu Estado Novo das Sornas Velhas,
minha República de Vichy das Letras,
tão eternamente de boca fechada,
p'ra nunca te poderem imputar opiniões,
excepto as da inclinação soturna
deste vento dominante!...
A Agustina é a serpente baça,
que coabita com o Poder,
a que haverá sempre de estar p'ra ali,
escarrapachada como uma lapa,
a perpetuamente acocorada,
para não perder pitada alguma,
a eminência parda,
a liberal, a moderada, e conservadora,
a ultramontana,
a tirana obscura,
do despotismo mal iluminado,
o agreste muro do não passarão,
a avezinha eternamente reaccionária,
a sopeira lava-escadas
da sombra do ver s'irá
poder pingar mais alguma coisa
da mesa da Coroa
então vigente!...
A Agustina é o Vasco Graça Moura,
mas muitíssimo mais sofisticado!...
A Agustina é aquela que servirá sempre bem,
e sem nunca olhar a quem!...
A Agustina é o Papão,
o Homem do Saco das crianças que não queriam comer,
o tom Hohenzollern com que o Kaiser gostava de se pôr a pintalgar o seu próprio caixão.
A Agustina queima as pestanas,
gasta os dedos
e espalha a cegueira mais profunda,
sem que dela fique mais do que
o suminho espremidito
de um limão já ressequido!...
A Agustina é o tubo entupido
d'andar a dar clisteres
aos saguins!...
A Agustina é a senhora da guerra sedimentada,
a assesta-lupas de tentar encontrar genialidades
à viva-força,
o Salieri desta Corte Nacional,
-- e Corte do Norte,
ainda por cima!... --,
ou por baixo,
-- ó Agustinha, minha
derreada mata-mouros
de qualquer fantasia!...
A Agustina é o aríete da sensibilidade,
dos mais desprezíveis estranguladores de paixões,
o esperanto desolador de qualquer hino internacional,
a cabala hoje montada, e já lucrativa,
da pobre contemporaneidade
qu'a mim veio caber em sorte!...
A Agustina é a Morte cansada,
o recolhimento da Sarah Bernardt,
em cada noite deitada no seu próprio esquife,
a Ara Pacis de uma velha necrópole,
a calma recolhida, e sisuda,
dos abandonados cemitérios da província,
a múmia de Ramsés II,
ridiculamente sentada à janela,
o granítico memorial das anchovas congeladas.
A Agustina é a escolopendra,
o lacrau meão,
o Mário Cláudio, já velhinho,
o Dantas mal encapotado,
daquela geração do já não saber que havia o Dantas,
-- pois ele voltou mesmo,
e até se recomenda,
e bem,
a quem cá hoje
quiser ser alguém!...
A Agustina tem uma pedra no útero,
A Agustina é o calhau das virilhas,
a ovários de chumbo,
a trompas calcetadas,
a trouxa das sílabas mal enresinadas.
A Agustina é aquela alegria
que ficou para sempre caída nas vielas de Pompeia,
o pórfiro sombrio,
deixado por Roma nas pedreiras da Capadócia,
o peso daquele estado soturno que se tinha atrevido a confiscar as próprias flores,
o tributar da brisa marinha,
dos sorrisos da criança qu'inda não sabia os males de ler!...
A Agustina é a meia graça,
o espírito fino
das padeiras flamengas,
a elevação de espírito
de todas as mulheres a dias,
o gracejar sibilino
das varinas da Ribeira,
a anedota p'ra se rir no dia seguinte,
mal chegue a manhã
de um pequeno almoço manteigueiro.
A Agustina é o sifão
da Imaginação,
o palavrão senil,
já traduzido por lisonja.
A Agustina é um tijolo,
o próprio betão da Fala,
a lava da Noite,
a argamassa da astúcia inútil.
A Agustina é a laje, a lápide, o alçapão,
a frincha mal fechada,
onde, um dia, alguém
haverá de desmanchar um pé!...
A Agustina é o solar de persianas corridas,
a meia sesta daquela titi ronhosa,
que dormia co'olho aberto,
p'ra ver se a sobrinha já não brincava
co'a pilinha do jardineiro!...
A Agustina é a derradeira tentativa
de converter Portugal
numa Escócia de senhores sisudos,
a piolharem eternamente
um enorme populaço
de camponeses derreados!...
A Agustina é o sorriso dos mortos,
o chá de tília,
a infusão de camomila fraquinha,
o meu lé de laramba pimba,
a triste remediada da Literatura,
a Escova-Botas,
a Mangas-de-Alpaca de uma pobre editora empoeirada!...
A Agustina é uma velha que continua a guardar as notas no colchão,
a Olha-Para-O-Próprio-Umbigo
do monótono dia a dia.
A Agustina é a paz podre,
de nunca tornar a suceder nada,
o enredo sem surpresas,
a crónica convencional,
a derradeira página do Diário da República,
a biografia castrada
dos tectos da Capela Sixtina,
aquela que fica sempre para apagar as luzes de quem já saiu.
A AGUSTINA É MAIS UM REI VAI NU DA PORTUGALIDADE!...
A Agustina é uma abóbora,
A Agustina é indigesta
e muito boa p'ra sesta,
é pastoril
e já meio senil,
a cozinheira afável da velha Bovary,
que lhe pôs nos dedos os comprimidos
daquela tarde d'assombração de se querer matar!...
A Agustina é o hectar em postas
o estere,
o quintal e meio,
a grosa, a groselha
e o capilé,
a arroba,
a alfarroba e o Alfa Romeo,
o Porsche sem rodas,
a caleche escavacada
das velhas mais tresloucadas,
aquela doença que dá nas galinhas p'ra se porem a bicar o cu umas às outras até morrer,
a das vacas loucas,
a doida, o gebo e a sombra,
o aedo de Rilhafoles,
o passador de drogas leves,
a rendas,
a cortininhas de tule,
a florida do piroso,
a almofada furada de riba Douro.
A Agustina é a fada do lar
dos enfadados.
A Agustina é o contentor,
o camião TIR
carregado de bóinas velhas.
A Agustina é como estar em coma,
cem anos ligado a um pulmão mecânico,
-- meu rame-rame de nunca mais poder voltar a respirar fundo!...,
para baixo, para cima,
para cima, para baixo,
num mesmo recanto de cotão,
Ó MEU TRISTE CHULÉ DA PROSA!...
A Agustina
é cabotina.
A Agustina é uma cavalona.
A Agustina é um bisonte.
A Agustina é a Ana Karenina de um país sem comboios.
A Agustina é o convento, e mais o que lá vai dentro.
A Agustina é o marido, a mulher e a colher.
A Agustina é um pomo sem discórdias,
a ovelha ronhosa,
a Rua da Betesga engrinaldada em Rossio,
o devagar se vai ao monge,
o filho de peixe que se soube aproveitar,
e bem, da época qu'agora tem!...
A Agustina é a História discriminada de como as irmãzitas Carmelitas Descabeladas ali faziam o seu velho arroz doce e entrecosto a servir por junto à mesa do Paço de Enxobregas, narrada por quem lá esteve, e continua, com saúde, graças a Deus, bem enfiadinha no seu tugúrio de média luz, por vontade da falta de sol, e mercê de todos quantos continuam a mijar p'a trás, agradece e retribui, seguindo-se uma lista completa de como se servia, etc, etc, etc..., pela Graça de Deus no Anno de..., ora deixa lá ver em que ano é que ela ainda anda,
a minha querida Agustina,
A DERRADEIRA DESCOBERTA DE
PORTUGAL NO SÉCULO XIX,
para qu'aqui o passem a saber
Europa e Mundo!...
A Agustina é uma mina.
A Agustina é a Eva do Natal.
A Agustina é um bom negócio,
o seu próprio pé-de-meia,
o genuíno triunfo dos direitos de autor,
DE QUALQUER COISINHA,
desde que a possa pôr a render,
a conta a prazo do mau parágrafo,
o depósito d'ideias nulas,
o empréstimo escandaloso,
o produto financeiro de forma rectangular,
-- e com lombada debruada!... --,
a poupança-reforma do estilo reformado,
a pensão bem contadinha,
e crucial,
numa página de letras mal paradas,
a Obra Completa das grandes hipotecas executadas,
o poema das somas justas,
o débito encantado do gerente calvo,
a multiplicação dos pães sem fermento,
o dinheiro,
já na Suíça,
a debitar os eternos juros
de um sigiloso balcão de província.
A Agustina é a esquina,
Onde todas elas se costumam
pôr a atacar!...
A Agustina é o Gorila Maguila,
o monstro das bolachas,
o papa-formigas da falsa ingenuidade.
A Agustina tem chatos
e é muito, muito, chata!...
A Agustina é a carraça que os cães costumam trazer colada ao pêlo,
sempre que decidem passear-se p'lo jardim.
A Agustina é o gorgulho, o engulho e o embrulho,
o triste pacote postal,
a adiposidade flácida
do nosso emplastro da Cultura,
o disco riscado,
de lograr andar cem anos a tocar a mesma música,
A Agustina é o deixar-se ficar p'ra ali,
de conseguir fazer um prato de quaisquer restos.
A Agustina é a sopa que deu p'ra a semana inteira,
o croquete saído de dez travessas,
a açorda das côdeas abandonadas dos melhores restaurantes,
a pirâmide de chocolate dos bocados ficados por mastigar,
aquele arrozito à justa,
a acompanhar o chouriço
que já não chegava!...
A Agustina é uma buzina que enresina,
o advogado comprado,
o caldinho aquecido no próprio lombo,
o gaspacho setentrional,
já enfiado p'la goela da criancita
-- toma lá, não gostas, mas há-des aprender a gostar, qu'em Lisboa já não se fala d'outra coisa!... --
-- ó minha espantosa Rosa Lobato de Faria,
em versão erudita
de telenovelas indigestas
de contenção,
não fosse dar-te um incómodo
cheirinho de modernidades!...
Porque o mal da Agustina nem é não prestar,
mas o prestar à justinha, do Corin Tellado
de quem só queria durar até ao sol-pôr,
-- linda poia natalícia do só aparecer de quando em quando,
p'ra-ver-s'ainda-faz-falta,
-- que fazia e não fazia,
à alegria fraca de quem tinha estômago
p'rá continuar a ler!...,
porque a Agustina era bera,
e baratucha,
a mil paus
do enorme consolo das vizinhas
a poderem continuar a ter nas estantes
para mostrar aos visitantes!...
A AGUSTINA ERA BOA,
MAS SÓ FORA DE LISBOA!...
A Agustina era o Saramago setentrional,
o círculo de leitores de lombadas,
o saco roto dos pombinhos pendurados no poial,
a fraldas de oitenta anos do nosso pior futuro,
a galinha incontinente,
que só queria obrar p'lo Presépio,
os seus cem mil exemplares
já todos engomados
e distribuídos p'las décadas mais passadas,
-- ó meu serôdio triunfo de um imenso Barroco,
minha velha bisavó ultra-romântica,
de uma Inquisição prolongada,
minha coveira da Modernidade,
minha miguelista, sem nenhum Miguel,
minha Viagens na Terra Dela,
minha Portugalia Monumenta Chatérrima,
minha camiliana senhora fora de horas,
meu bernardo-eremita do derradeiro oitocentismo,
santa rede criminosa de tanto andares p'ra aí
a apanhar sardinha da pequenina,
na tua estilística petinga setentrional!...
A Agustina nunca teve o cio.
A Agustina era a vergonha nacional,
o próprio arquétipo da Abstinência.
-- A Agustina até era capaz de ser boa,
mas eu já não sou do tempo disso!...
A Agustina era a alegria do Verão das piores varejeiras,
um certo rigor das sombras,
de trevas andadas a
arrastar de candeia em mão,
a eterna não-surpresa
de já se saber que saía sempre,
e como saía,
no Inverno nosso de cada dia,
nos dava ela hoje,
ONTEM,
-- ó meu claustro perpetuamente bolorento,
de pitonisas sem camisa!...
A Agustina era o esqueleto cinzento da Impertinência,
O LIVRO MAIS CHATO DE PORTUGAL!...
A Agustina era um percevejo,
que p'ra ali também medrava.
A Agustinha era daquelas que tinha tinha.
A Agustinha,
coitadinha,
NEM DADA
AGORA ALGUÉM
A QUERIA!...
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quinta-feira, 26 de novembro de 2009
No mês da morte de Mário Cesariny de Vasconcellos, um mesmo texto de epitáfio, porta de eternidade
Morreu este mês há três anos, mas isso é puramente emocional, porque definitivamente entrou naquela faixa da Eternidade, onde o Tempo já parou.
Este texto, cujas muitas voltas o levaram à edição na Suíça, é, evidentemente, dedicado ao João, que, comigo, então o concebeu, "un cadavre-exquis", numa noite de sombras e álcool a rasgar os tectos, defronte de uma janela alta, com um bosque vastíssimo, pela nossa frente, os meus lugares secretos. E é sobretudo dedicado ao Mário, o maior, de um tempo de infindáveis figuras rastejantes.
Que pena nunca se terem lembrado de ti para o "Nobèle", mas não eras cómodo, sabias escrever, coisa imperdoável, e REALMENTE estavas vivo, o que é, de facto, gravíssimo, neste miserável tempo que nós atravessamos.
Luto Directo, nos Quatro Elementos: a Terra e a Água e o Fogo e o Ar
“Cadavre Exquis”, in memoriam Mário Cesariny de Vasconcellos
No Princípio, era um osso calcinado, mas calcinado em branco, de todas as voragens dos séculos das dunas, e das superfícies extremadas, e impossíveis, do polimento dos sóis desérticos, e de todo o espelho ardente do Astro, totalmente abismado de Luz. E era então a Idade do Crómio, com um frágil deambulador lançado pelas encostas semicerradas de olhos, e afogado na impossibilidade das sensações do Reflexo, todo, e do Esplendor. E este foi o Primeiro Momento.
O segundo sortilégio era uma Falsidade: o seu Nome escondia-se por detrás de uma Fachada-Legião, a ordenar os muitos volúveis rostos do Mar, e nas ondas, e nas areias, e nas divindades ctónicas das pequenas coisas, e nos deuses minúsculos, e também nos que comandavam a Matéria inteira e o Sonho extenso. E um corpo nu, pela Aurora, a desafiar a roda inexorável do Tempo. E este foi o Segundo Momento.
Embriagado de pólen, o besouro metálico ainda ignorava tal destino. E assim cumpriria, antecipado, o ingrato fado do seu próprio fado: meia estação, no seio de um mel amargo, e o ano de trevas da Metamorfose, e os dois curtos êxtases do instante da Procriação, e, logo após, o silêncio do Fim, de novo, e indolor. Pouco tempo, o seu, e sem sequer chegar a conhecer os pausados sabores do Outono. Pois ele jamais saberia que o Amor não passava de uma melancólica preparação para a Morte.
E este foi o Terceiro Momento, mas era ainda o tempo do Mar, e da Luz e da Areia. Era a tarantela mágica, no calor da palha, a emudecer a roda dos receios. Cor contra cor, tarde demais, o escaravelho distinguiria as falsas preces do entorpecer. Sonolento e plácido, ele apenas sonhava com um vago equador de sensações, a brisa solar do meio-dia, e os infindáveis pólenes, cálidos e afrodisíacos, da sua breve deriva estival. Asa de fogo, a tarde cobre-o então. E é então que, hipnótico, o Entardecer também tacteia, e o recomeça a enredar.
Por um momento, a Atmosfera assim irá antecipar, nesse triângulo extremado de luz, todos os matizes do Poente, pois o seu corpo não passa agora de um lugar confuso de esplendores, e dos confusos rumores das sombras, e dos infindáveis jogos irisados do Crepúsculo, fundidos nos clarões rasos de uma tarde devastada.
A Aranha então avança, e já o pólen é negro e a penumbra das pétalas, e, quando o abraço nele esboça, é no conturbado instante, onde se franqueia a linha turva, para lá da qual se semeiam só Silêncio e Medo. Não a chegará a ver, pois é tarde, e já o estreita, num súbito convulsionar. Em vão se debaterá, enquanto, férrea, lhe procura as juntas da couraça, para injectar um mortal veneno.
Como numa cama apressadamente revolta, também a corola se encontra agora desfeita. A luz decai e a dança cessa. Mineral, a tarde inteira avança. E também o besouro se torna ali de pedra, e a Aranha inicia o seu brutal repasto.
Pelas frestas das portadas, eis que surge agora o doce encanto. E este é o Quarto Instante. E eu reconheço a radiante face, que ora se ergue altiva, sobre um negro manto. É a soberana candeia nocturna, a Deusa, que rompe o breu e o silêncio, no seu cúmplice cumprimentar prateado. Ora anseia o fechar do Ciclo, em que desvelará todo o seu esplendor.
Convida-me, Esbat, para a tua Grande Reunião. Sob o olhar atento da Venerável, as crias perscrutam aqui, nas trevas, e correm ao encontro da Progenitora, anfitriã da celebração inteira, e eternizam o selvático êxtase, no momento da devota comunhão.
Eis o astro marginal, minha mãe e amante, sedutora confidente, conselheira indulgente, que me ilumina a Escuridão. E a Lua, no oxímoro da sua esfera escura, recomeça então a erguer-se ao fundo, como outra forma ardente dos astros.
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quarta-feira, 21 de outubro de 2009
O Caso Saramago
É, pá, vamos lá tentar ser sucintos, porque eu tenho mais que fazer e pensar.
Como é típico em Portugal, acorda-se tarde e a más horas. Faz anos que escrevi, e publicamente me pronunciei, sobre Saramago ser um Cancro da Cultura e da Língua Portuguesa. Isso fez correr horas de debate, e o texto passou de mão em mão, por tudo o que era pró e contra, na Associação Portuguesa de Escritores. A coisa, mais ou menos, só me foi comunicada depois, pelo meu caríssimo amigo, José Correia Tavares, que até alinhava, e com paixão, no que eu tinha escrito. Em 92, o texto era um mero esboço. Foi fotocopiado, e passou pelas mãos de toda, ou quase toda, a gente que escrevia em Portugal. O "Laramago" final foi revisto em 1998, quando o pobre diabo recebeu o "Nòbele", e imediatamente me começaram a chover telefonemas em casa, para quererem saber o que eu pensava. O problema é que eu não pensava nada, nem o assunto sequer me interessava.
O chamado "Nobel da Literatura" deixou de fora alguns dos meus escritores favoritos, como Proust, Joyce, Kafka, Borges ou Ezra Pound, só para citar alguns, de cor. Em contrapartida, e justamente, foi atribuído a Thomas Mann, a Otavio Paz, que também traduzi para Português, e, o ano passado, a Le Clézio, um ESCRITOR. Afora isso, está cheio de sombras e de solavancos políticos, como uns gajos do Quénia, ou lá o que é, e mais umas geografias da conveniência, situadas pelo Oriente.
Por um silogismo simples, ao terminar o séc. XX, havia uma lacuna no Nobel, que era nunca ter atribuído o galardão a uma Literatura extensa, rica e nobre, como a Portuguesa.
Também é líquido que, quando as cabeças do Comité começaram a girar às voltas, para ver se havia algum Português que sobressaísse, o que estava mais a jeito era o que manipulada, e habilmente, tinha sido "colocado a jeito", cum caraças, obra de uma formiguinha badalhoca, com metástases em Portugal e España, e cuja especialidade era o "marketing". Parece que é uma Pilar não sei das quantas, que se não deve ter casado com o velho, por acaso... Na Escandávia, e isso já entra na "petite histoire", havia um ativista do "Partido", como há muitos por todo o lado, que sacou o coelho da cartola, e o milagre fez-se.
Literariamente, Saramago não vale um corno, e a máquina que o alçou é duvidosa, se bem que eficaz: pareceu dar-nos um balão de oxigénio, mas não deu nada, porque concedeu visibilidade a um mau escritor e a um péssimo caráter.
Se, de aqui a 100 anos, se fizer o levantamento da construção da Língua -- isso é uma das tarefas do ESCRITOR -- devida a Saramago, a resposta é ZERO. Não há uma única ideia, uma frase memorável, um aforismo que possamos contar aos vindouros. Aquilo é mau, mal escrito, e serve, como máquina de fabricar chouriços, só para enriquecer uma editora e o próprio. A esta hora, o Bom Comunista, se ao menos isso ele ainda tivesse em si, já devia ter transformado os lucros fenomenais numa Fundação de diminuição das Assimetrias Sociais, mas a tartaruga analfabeta prefere refugiar-se em Lanzarote, a fazer o papel da alma incompreendida e exilada.
Seja ateu, mas conceda aos outros o direito de acreditar, e esta é a frase de um não-cristão, eu.
Isto parece não ter nada a ver com o sucedido, mas tem. Ao contrário de Saramago, de quem folheei uma vez um livro, só para ter a certeza de aquilo era uma MERDA, gosto imenso da Bíblia, um texto onde há um gajo extraordinário, muito moderno na irreverência e na consensualidade, no vive e deixa viver, no não censures naquilo em que podes ser censurado, e que preferia, como eu, os amigos à família. Estou a falar do "Novo Testamento". Olhando para trás, e para a frente, a linguagem bíblica, cheia de metáforas, de construções hiperbólicas e de imagens inesquecíveis (O "Apocalipse", que ilustrei, e prefaciei -- coisa difícil... -- num mau momento, e a pedido do Assírio, então muito doente, mas, felizmente, já recuperado), ao contrário de Saramago, de quem nunca li, nem lerei, uma linha, influenciou-me fortemente na escrita: deu-me um caráter messiânico e um estilo de abismo, entre o profético e o embalador. Devo-lhe muito, a esse livro, semigrosso, que anda espalhado, entre o meu chão e a cabeceira. Nunca lá vi maus exemplos. Como os textos egípcios, os mesopotâmicos, o maravilhoso "Gilgamesh", que também ilustrei e prefaciei, a Bíblia está cheia de situações ameaçadoras, mas... obsoletas. Em lugar nenhum desse livro está escrito "guarda os cabedais da tua usura, e os direitos de autor da tua prosa intragável, para pôr isso em juros a render, para as "lingeries" da Maria del Pilar", e a puta que a pariu... Não manda matar o próximo, nem exilar para a Sibéria, como os catecismos em que esse cúmplice silencioso da morte, chamado Saramago, alinhou, sem nunca se ter retractado. Esse Saramago é o mesmo que, em 75, saneava, com palavras apocalípticas e anátemas do Deus do Velho Testamento, os colegas de trabalho, que não comungavam dessa mesma cartilha. É o mesmo que esteve calado sob todos os crimes cometidos pela União Soviética e acha que em Cuba se vive "normalmente".
Vá viver para lá, e deixe os Cubanos refugiarem-se em Lanzarote.
Tudo isto deu polémica, e levou a que eu abandonasse a Direção da Associação Portuguesa de Escritores, por dizer, como hoje, e sempre, todas estas coisas que as pessoas têm MEDO de dizer.
Em Portugal continua a viver-se no MEDO, de verbalizar, escrever e pronunciar publicamente o que se pensa.
Em 90, pus a cabeça no cepo, quando, com Mário Soares a declarar -- podem procurar no "RTP-Memória", que talvez lá esteja -- que, parafraseio" "Portugal vivia um dos seus momentos de maior criatividade literária", e apanhou comigo em cima, a desancar, em diferido, mas televisivamente, que o Grande Prémio de Literatura da Associação Portuguesa de Escritores era uma jigajoga, que dava, todos os anos, uma batelada de dinheiro a um, ou uma, que ainda não tinha tido direito à fatia (!).
Não era Literatura, era esmola rodada, e quem apanhou com isto em cima, em direto, na RTP, foi um tal de Paulo Castilho, mais um dos tais que vai acabar na poeira e no esquecimento, e que não se sabia onde se haveria de meter, quando levou com o meu depoimento em cima...
Na mesma época, já pontificava a Clara Pinto-Correia, outra miséria do cenário nacional, com o seu "Adeus, Princesa", uma bosta, cheia de erros frásicos de construção, a contar umas fodas que ela dava, em Beja, com os militares alemães, que deviam achar gira a pele tisnada, coisa que eu nunca li, mas que foi Livro do Dia CRÓNICO na Feira do Livro, durante ANOS, até a mulher se perder no álcool (E esta é dedicada a um dos nossos mais assíduos leitores, que bem sabe quanto custa acompanhar a Vice-Reitora nas suas curas de desintoxicação. Um abraço para ele, e um pontapé na cona, para ela...). Mas o pior ainda estava para vir, o Sousa Tavares e os seus plágios, que muita gente também considerou "Literatura", a Inês Pedrosa, meu deus, o meu amigo Pedro Paixão, que sabe que eu não o leio, e a quem aconselhei fazer o Doutoramento com a ligeireza com que... não escrevia.
As voltas que Pessoa e Eça haveriam de dar na campa, ao ver no que esta choldra se tornou, mas isto já vai longo e finaliza com um pequeno conselho para esse traste do Saramago: "amigo", você, que acha a Bíblia um lugar de maus caminhos, faça-me um exercício: reduza a sua escrita, que é fraca, vá lá, mesmo fraquinha, e, enquanto reduz a sua fraca escritinha, olhe mais para os lírios do campo, e menos para o seu milionário saldo bancário. Todos nós agradecemos, e muito.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Jasmim
Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas
Fotografia sobre fotografia de Margarida Martins, com poema dedicado, "et pour cause"
Chegada a hora do luar espelhado, todas as longas memórias já eram partidas, e só tu, depois da caminhada extensa do dia extinto, te sentaste, a contemplar o reflexo das flores inebriantes do jasmim
Libellés :
Jasmim,
Luís Alves da Costa,
Margarida Martins
sábado, 11 de julho de 2009
segunda-feira, 29 de junho de 2009
I.F.R.A.O. - A Apoteose da Arte Rupestre
Libellés :
Arte Rupestre,
FUMDHAM,
IFRAO,
Luís Alves da Costa
domingo, 7 de junho de 2009
Ao meu Amigo Luís Alves Costa
Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas
Pela perda do seu Pai, o Dr. Francisco Alves da Costa, escritor, Filólogo e membro da Sociedade de Língua Portuguesa, a quem "o Destino reservou o dia de hoje para a sua grande viagem para a Eternidade".
Perante o Luís, grande artista, poeta, professor e blogger, curvo-me com reverência pela sua dor.
Tirado da "Pérola da Cultura"
Libellés :
Bilros e Berloques,
Luís Alves da Costa,
Solidariedade e Luto
sábado, 6 de junho de 2009
Dedicado a José Sócrates, com todo o meu desprezo
Libellés :
Ah sim José Sócrates,
Luís Alves da Costa
segunda-feira, 30 de março de 2009
Uma noite de Fortaleza e 4000 variações sobre um poema abandonado do grande poeta Tripa Seca
Dedicado ao Paulo Olho Verde
E a face serena da Lua,
a espelhar o horizonte dos mil mares,
e mil glórias e mil fogos a queriam sua,
mas só breves sorrisos dos deuses a permitiam beijar.
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sábado, 28 de março de 2009
Última chamada para ver, em Lisboa, "A Cadeira do Poder, em época de euforia autoritária" (Luís Alves da Costa, 1993)
segunda-feira, 23 de março de 2009
"Antes da Aurora": Com todo o atraso do mundo, uma celebração do Dia Mundial da Poesia
Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades AvançadasAntes da Aurora
E os cavalos desmoronaram o horizonte,
ecos a escorrer úmidos por pedras basilares,
e silvaram, a cortar a madrugada,
agrestes palavras, e bárbaras,
a antecipar-lhe as vozes sibilantes.
A rainha, calva, movia em dificuldades
a língua tensa, entre seixos de ouro
que na boca lhe rolavam,
e todos em seu redor se comprimiam,
madrugada vermelha e escura,
silenciosa a rumor de pedras lançadas.
E, entre o relinchar feroz dos corcéis
e a amarela dança premonitória
e os sacerdotes violentos de presságios,
a rainha, eleita e devorada,
a futura mãe carnívora,
tranças louras d'uma história sincopada,
ensaiava recuperar a voz do Sol,
pedras de ouro p'la boca,
frémito cru, e temeroso,
de que tal demência a arder do astro
se volvesse eterna, enfim, e fatal.
E agitava-se emudecida,
transportada em revoada,
corcéis inquietos e trepidantes,
povo de antes da aurora
a galopar por anteontem de Tróia,
a espezinhar ervas em Atenas, amanhã,
e a galgar, por entre gritos,
o Mar aberto de referências,
a singrar no que Tartessos será
e Roma se chamará, futura,
ávidos de manhãs serenas, em aflições já hoje pressentidas,
línguas rudes a ter de articular
em auroras inquietas, e loucas, e imprevisíveis,
as antenascidas antiguidades.
Libellés :
Dia Mundial da Poesia,
Luís Alves da Costa,
Música Arcaica
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