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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A Ilha



Tenho como principal defeito passar a vida a abrir portas, pelo Mundo, numa insaciável ansiedade de encontrar aquele estranho lugar a que chamamos "casa". E a Madeira é dos poucos lugares da Terra, onde, de facto, eu sinto sentir-me em casa, com a estranheza de ainda continuar a permanecer em Portugal.
A Ilha é extrema: ela prolonga todos os excessos do fundo do Oceano, e ergue-se, de repente, como se não tivesse tempo para pensar ficar, algures, entre o Céu e o Mar. A pique, chama-nos do alto, e faz-nos a promessa das paisagens vertiginosas, para quem vive semeado dos relevos brandos do Continente. Ela quer-nos acima das nuvens, subitamente cegos da terra firme, mas, depois, quando pensamos que a escarpa, irremediavelmente, ali nos condenou à inquietação da sua vertigem, ela abre-se, de novo, sorridente, em acolhedoras baías, num outro ascender volátil, que nos leva a novos cumes da paisagem.
Quem nunca sentiu os odores da Madeira não conhece Portugal. É como se descessemos ao patamar dos Trópicos, mas com um pé ainda no estribo dos Atlânticos, e, enquanto eu escrevo este texto, todas as quentes brisas do Norte de África trazem-me à memória a história inteira da nossa Epopeia Oceânica.
A Madeira são píncaros, raras flores, e uma subtil Primavera que se estende pelas estações inteiras do ano. Posso enveredar pelo roteiro do livro de viagens, e falar agora no tom canónico dos seus relatos: é terra de gente afável, onde os naturais, como todos os ilhéus, transportam no fundo do olhar, com que sempre nos contemplam, a esperança do horizonte centrífugo. Ao cruzar de cada esquina, encontrarás, assim, como contarás a El-Rey, o teu Sexta-Feira, que te proporá fidelidade e companhia para o resto da tua deriva, mas a Madeira é, pelo que vimos, ouvimos e sentimos, sobretudo, um lugar de veredas interiores, e de frutos que nos inundam o paladar dos odores e o olfato dos sabores, e daquele célebre fruto, que eu chamei, num tempo ido, de "fruto-do-paraíso", mas que não era mais paraíso do que o paraíso do maracujá-banana, e quão longe vão esses anos, quando eu o trouxe de um patamar ocre da intensa Machico, com a visão por demais perdida naquele recorte, muito extenso, e esguio, que ali se lança, em vermelho-poente, do fim da Terra até aos confins do Mar.
A Madeira é terra de senhores e de gentes simples que a fizeram. Como nas paragens felizes, a política dos seus homens esgota-se no comércio das simpatias, nos sorrisos dos que sabem que a lei própria é muito mais discreta do que os rigores dos papéis distantes: para cá da Camacha, apenas manda quem por cá passa, e assim se fez toda a nossa inteira traça.
Mais além, são agora os cruzeiros ardentes que seguem na direção do alto-mar, uma infinita plataforma, em anfiteatro de hóteis, onde os sonhadores do Mundo guardam preciosamente as suas memórias, a recontar, no retorno das terras cinzentas e frias. Há um palácio e um jardim, uma catedral de influências moçárabes, de pedras escuras, disfarçadas de branco, a lembrar o verão indiano de uma cultura que ainda nem sabia estar a começar a florescer, e para sempre: porque, quando começámos a escalada do Mar Oceano, e pousámos o primeiro pé na escadaria chamada "Madeira", terra de muitas árvores, que foi preciso ser mergulhada no holocausto de um incêndio, até que se descobrissem as suas inteiras terras férteis, ainda nos guiava a mais pura ingenuidade.
Mais tarde, apetece-me agora sentar num banho de nuvens, e beber um derradeiro copo de neve de picos altaneiros. Quando tiver sede, estenderei a taça na direção de uma cascata, e, quando quiser ouvir o trovão, esperarei que as escarpas soltem mais uma pedra negra sobre o Mar, a anteceder milénios de rolamentos, até se voltar a vir espraiar, com a água pelos tornozelos, na forma tardia de um seixo escuro, desgastado, que também poderás levar contigo, para as prateleiras do teu museu imaginário.
Eu, poeta, poderia ainda cantar os musgos, e aquela estranha aranha negra, um dia, estendida na extremidade de um galho retorto, para, ingenuamente, "me fazer ali chorar", como se as lágrimas da despedida não estivessem já feridas pela armadilha do perpétuo retorno, e os anos passaram, e, entre sorrisos, recordávamos, nós, o primeiro encontro, e todas as grandezas, e os percalços, e os altíssimos triunfos, atravessados de inevitáveis amarguras, mas a temperatura era ali tão excelente, e o misturar dos perfumes uma música, de tal modo inimitável, no mais belo cenário do Mundo, que nós parámos, e tivémos de escrever, na borda do papel do nosso desgastado caderno de viagens, um derradeiro texto, firme, imutável, cálido, linhas de ontem, de hoje, e de amanhã, como uma sonora epígrafe de fénix renascida e recuperada, o louvor do renascer da Ilha dos nossos maiores encantos.

12 commentaires:

Semiramis disse...

Parabéns :-)

♥♥♥♥♥♂♥♥♥♥♥ disse...

AH, AH, AH, AH!

LOL

que ridículo!

Ariesky Agus Priyana disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
f@ disse...

Sempre Sublime...

Be!jinhos

Luís Alves da Costa disse...

Obrigado. É um luto pelos mortos, mas também um luto por um espantoso lugar da Natureza, por sorte, NOSSO.

Karocha disse...

Muito bom.
Abraço
Karocha

Tripa Seca disse...

:-)

Teresa Girona disse...

Parabéns, como sempre :-)

Luís Alves da Costa disse...

Obrigado. Lamentável é que uma... coisa, profundamente doente, continue a achar que tem o direito de andar por aqui, quando o País inteiro está traumatizado, no seu solilóquio de coisas que ninguém percebe o que são.
Sim, em "Fanny e Alexander" parece que havia uma criancinha abusada e reprimida em família, mas nós não temos nada a ver com isso

Semiramis disse...

Isso está incluído nos sintomas da doença, suponho :-)

Laura "Bouche" disse...

Do meu ponto de vista, deu-se demasiada folga a essa aberração do Canidelo, para vir aqui despejar as frustrações.
Era mandá-la para o caralho e entalá-la, logo à primeira

Teresa Girona disse...

Um desrespeito absoluto pelo Colectivo e uma demência impiedosa

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