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domingo, 13 de setembro de 2009

Jorge de Sena e mais uma cambada de Minotauros

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

"Nascido em Portugal, de pais portugueses,


e pai de brasileiros no Brasil,


serei talvez norte-americano quando lá estiver.


Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria
de que escrevo é a lingua em que por acaso de gerações
nasci. E a do que faço e de que vivo é esta
raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria que
este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,
espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar dos deuses sem vergonha."

Jorge de Sena

sábado, 12 de setembro de 2009

Jorge de Sena, numa extensa e magoada cena final

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas


Alguns dos piores dias dos poetas chegam-lhes depois de mortos. Contrariamente à sua vontade, e num aparato típico dos cultuadores da Necrofilia, Jorge de Sena voltou, contra sua vontade, ao solo português.
Jorge de Sena foi dos que se foi embora, porque esta terra não prestava, ou não servia. Algumas das mais amargas palavras que se escreveram sobre o horror de se estar condenado a este cativeiro de frestas lusitanas saíram da sua caneta.
Foi-se embora, e disse que nunca mais voltaria.
Em 30 anos, um corpo já deixa de estar bem longe de qualquer memória da matéria, e reduziu-se a um simbólico espólio de peças respeitáveis. Nós, expectantes e serenos, aguardamos as vontades dos Poetas. De Sena, sempre viperino, disse o velho Pacheco que era um espírito ávido, omnipresente, e que se adiantava a todos os outros, e dizia "presente", sempre que se invocavam as almas líricas, épicas e dramáticas, nas sessões de espiritismo de pé de galo, mas isso é agora irrelevante.
Era uma alma portuguesa que queria deixar no testemunho do seu exílio a impossibilidade de plenamente se contemplar no berço pátrio.
Separam-me de Sena muitas palavras azedas e demasiadas peças de betão armado. Não o tenho como poeta de cabeceira, e evoco sempre alguns dos seus poemas como lapidares, como se faz sempre com aqueles que não nos preenchem o coração.
Aquilo a que se assistiu hoje, o regresso forçado de um corpo, numa época que tem tudo menos da exemplaridade e dos ideais pelo que o pensador e o homem político sempre lutaram, foi uma profanação. Por mais indignos que sejam, e são, Sócrates e Cavaco, dois seres lúgubres, que Sena, em seu tempo teria desancado até ao fim, não se deveriam ter atrevido a tal, mas atreveram-se.
A viúva sabe que o tempo existencial é finito, e num dia próximo seria a vez de o seu corpo também vir para Portugal, deixando para trás, na longínqua Califórnia, o despojo do homem que se recusara a regressar. Poderia acontecer.
Não quero dizer mais nada, pois acho que que já deixei tudo dito nas entrelinhas, mas fica uma pequena maldade: Dona Mécia, numa longínqua carta, que acho que ainda tenho para aí guardada, estava armadilhada uma confissão, que acho que merece, para o dia vexado que hoje se encerra: quando comecei a escrever os "Fragmentos Musicais", era adolescente, e nunca tinha lido uma linha de Jorge de Sena. Menti-lhe, ao dizer-lhe que o que tinha escrito fora naquela linhagem que os poetas encontram e sustêm. Nada devo a si, nem ao seu marido. A verdade é que simplesmente aconteceu: a Música é demasiado grande para ser propriedade de um só, e ele rimou o que rimou, e eu depois tornei lírico o que fiz, pura e simplesmente, porque sim, mas em completa... disjunção.
Os poetas mortos já não falam. Fica para os vivos a missão de falarem pela sua boca: em memória de Jorge de Sena, Dona Mécia, se me permite, vou riscar este dia do calendário dele, e também do meu. Fica a constar só no seu.

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