
Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas
"Os meus gostos são muito simples: prefiro o melhor de tudo" Oscar Wilde

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Hoje, estranhamente, dei comigo a sentir a falta de Rosa Lobato de Faria, pessoa de quem nunca li uma única linha, e, evidentemente, não vou ler. Se me dissessem que tinha morrido o Saramago, lá soltaria um suspiro, e diria "até que enfim...", e seria pensamento sincero.
Rosa Lobato de Faria era como as casas dos emigrantes, e as sardinheiras penduradas em fachadas tradicionais: não fazia bem, mas também não fazia qualquer mal: era um daqueles à justinha, muito Portugueses, que tinha a grave missão de manter o "kitsch" nacional a funcionar, um pouco como a Santa da Ladeira, as fúrias de Alberto João Jardim, ou as baixas permanentes do Mantorras: olhava-se para a televisão, sorria-se, e pensava-se, "graças a deus, continuamos na mesma", e lá íamos adiante, mergulhar em leituras profundas, como Barthes, Artaud ou Tenesse Williams.
Houve uma fase em que Rosa Lobato de Faria se inclinou para a fruta, e todas as suas letras, "soft", das canções do Festival da Rafeirice RTP falavam de cerejas, e laranjas e tangerinas, ou talvez esteja a exagerar, porque aquilo só me fazia era rir. Ela era uma espécie de Maria de Lurdes Modesto da Literatura, e só mentes malignas é que relacionariam aquela fruta, bem mais sincera e colorida do que a sordidez existencial de Pinto da Costa, com um célebre poema de Cesário Verde, todo ele ambiguidades, e lubricidade polissémica:
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Há momentos em que o jet set se torna, mais do que uma imbecil exibição, numa coisa mais repelente. Como quando ouço na rádio este anúncio ipsis verbis: "Lili Caneças destroçada pela morte do namorado da filha. Saiba tudo na Lux". A sensação com que se fica é: que bom que aconteçam coisas, mesmo a morte, para que as socialites possam ter mais um pretexto para aparecer e a revista, esta ou outras, ter mais umas capas que não sejam só tira tatuagem, coloca tatuagem, B "assume" A e A já aparece na praia com B. O pouco valor que damos nos nossos dias à dignidade humana, à pessoa e não às "figuras públicas", em que toda a devassa é permitida ou desejada, alimenta toda uma indústria voyeur a que consentimos o direito à exposição de sentimentos que já não se sabem ter com reserva e genuinidade. Ia escrever que nem a morte provoca um sobressalto, mas a verdade é que nem sequer é novidade nenhuma que não provoca. Bem pelo contrário, vende mais.
José Pacheco Pereira, Sábado

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