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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Lisboa pré e pós socrática. Uma clássica de sempre: a Boneca de Cera


Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Estava à hora do almoço a passar os olhos pelo patuá quinzenal de S. Bento, quando me apercebi de uma realidade que faz o pleno daquilo que é urbi et orbi, a típica mulher portuguesa. Anafada, cara oval que a idade vai fazendo alastrar para baixo e para os lados. Testa alta, surgindo no topo cabelos que outra pretos, por artes químicas se tornam daquele bem conhecido louro esverdeado, emprestado pela habilidade da cabeleireira lá do bairro, a dona Zulmira.

Pois bem, pasmem. Sabem a que conclusão cheguei? O Parlamento está cheio de perfeitas réplicas de uma das mais tradicionais, insistentes e ainda não anacrónica figura de uma certa forma de estar: a Boneca de Cera.

Vejam, por exemplo, a deputada Helena Pinto. Não na foto em que surge toda photoshoppada no site oficial do Bloco de Esquerda. Não. Quero é que a vejam in loco na tv, sem retoques e tal e qual como é, igualzinha à senhora da portaria do vosso prédio. Vestida de outra forma, sem aquelas batas à tigresa ou com estampados floridos, passava bem pela Boneca de Cera, desde que se maquilhasse à maneira. São igualzinhas e o mais curioso é que a tal Helena tem outras irmãs gémeas, desde o PC ao CDS. Incrível.

A Boneca de Cera (não a conheço de "ouvir falar dela" por outro nome), é uma resistente à passagem das décadas. A primeira vez que a vi foi na estação de Metro do Rossio, lá para 1977 ou 78, ainda uns tempos antes de ter começado a sair à noite. Era verão e eis que entra pela carruagem dentro, uma criatura indefinível de caracterizar no género. Nem rapaz, nem rapariga, bem antes pelo contrário. Estava vestido "de homem", mas muito na linha daquilo que daí a pouco tempo seria a personagem Albin do filme La Cage aux Folles. Calça apertadinha, de cintura alta e ligeiramente à boca de sino, de tom creme/pastel. Meia a condizer e sapatinho estilo italiano "de homem", em cabedal preto e bem lustroso. A camisa, semi transparente, de corte "à homem", era um panejamento esvoaçante, um misto de tule ou não sei o quê de chiffon, também em cor creme, ou quase branco. Uma "ãecharpe" (como usa dizer a dona Maria de Cavaco e Silva), também vaporosa, a fazer jogo e cujas pontas lhe chegavam ao meio da bem abastecida perna. Rematando, uma pochétezinha preta, de fivela dourada, que graciosamente trazia agarrada por uma anelada e rechonchuda mãozinha de unhas bem envernizadas. Do pulso chocalhava uma pesada corrente de metal dourado, possivelmente adquirida na melhor joalharia existente numa banca de ciganos à porta do Metro. A cara era um rosário de delícias para o gosto do português, sempre atreito a formas ovalóides, desde as bochechas, aos olhos, nariz, queixo e boca. Um cabelo muito preto, cheio de laca e bem enrolado por trás das orelhas, emoldurava a cuidada cútis bem carregada de base e que apenas deixava passar um levíssimo vestígio da bem escanhoada e infalivelmente azulada barba. Pestanas bem carregadas do conveniente rimmel e sobrancelhas depiladas em forma de til.

Não consegui tirar os olhos de cima da aparição. Nem eu, nem a carruagem inteira. Não se tratava de um tipo vestido de gaja, porque a roupa era "de homem", mas tinha algo de muito diferente do comum. Pernil grosso, cintura espartilhada, rabo rotundo e com o cós da calça de fazenda a ameaçar sodomia têxtil, dando ao traseiro aquele inconfundível formato de "cú de fava" (cullo de haba), como dizem os espanhóis. Desconfiada ou interpretando mal a minha curiosidade, à saída a bicha decidiu-se e pelo corredor foi-me seguindo, sussurrando em ladainha, todo o tipo de propostas, desde alfinetes de peito, a convites para a conhecer mais internamente. Fiquei apavorado, até porque ainda miraculosamente inexperiente à data, já fazia ideias de iniciar certas actividades, mas não propriamente com aquele género de produto do mercado. Fugi.

Essa mulher ainda anda por tudo o que é sítio e como sempre, no Metro ao fim da tarde. Está igualzéssima ao que sempre foi, embora atingindo a plenitude física das matronas nos quarentas bem avançados, esteja agora mais rica de carnes, sem jamais se ter tornado gorda. Ainda bem apertadinha, hoje em dia circula em nuances mais sóbrias, de calça preta ou cinza, reservando as vaporosidades para os camiseiros. A pochette perdura, nas mais diversas cores. A maquilhagem, obedece ao mesmo esquema de sempre, embora agora opte por tons mais a puxar ao branco-pasta, com um ligeiro blush rosado nas maçãs do rosto. Os carnudos lábios, rutilantes de baton rosa pálido, mas húmidos de gloss. Continua a praticar aquele passo compassado, curto e ondulante, propício a salientar a curva traseira e o meneio do cabelo bem esticado e que apenas enrola nas pontas. Parece que leva um extintor de incêndios enfiado no rabo. Fabulosa.

Faz bem o estilo daquelas esposas de garagistas ou motoristas de taxi (aliás uma especialidade dela, pelo que se diz), que na zona de residência, Moscavide ou Camarate, souberam guardar as poupanças e abrir um prestigiante negócio de família, seja ele uma retrosaria de bairro, uma tabacaria ou um cafézinho que até fabrica pão na Bimby. Estas cavalheiras que dão sempre pelo nome de Deolinda, Conceição, Encarnação, ou Prazeres, subiram na vida, ganharam estatuto e tornaram-se nas chiques da zona, bem diferentes daquelas outras Cândidas ou Amparos, abestuntas oleosas sempre de bata às três da tarde, chinelas de quarto em pleno talho e cabelo que não vê Sunsilk há duas semanas. Nesta base eleitoral do regime, estas senhoras têm sempre um filho mais velho que já é proprietário de um Corsa kittado pela oficina do pai e se tornou num intelectual devorador da literatura de A Bola, sempre disposto a discutir com os seus pares os graves problemas que afectam cerca de 95% da vida dos nacionais: as transferências de jogadores, a lipoaspiração do treinador do Marítimo, o Totobola e as "gajas do Cristiano Ronaldo", embora secretamente bata umas à conta das pernas, peitaça, mala e do menino d'ouro. Nada que não resolva de vez em quando no Finalmente ou na sauna/espelunca da Trindade.

A Boneca de Cera é um grande mulherão da alta, asseada e veste-se irrepreensivelmente. Bem cheirosa, quando por alguém passa, deixa um rasto de dezenas de metros de água de colónia, num misto de Printil, Bien Être ou musk oil da Jovan. Sempre de enigmática expressão que 5mm de espessura de base acentua, por nós passa de olhar fixo no infinito. A todos conhece de vista e por todos de vista é conhecida. Existe e aí está, é tudo.

Consta que por vezes, ainda pode ser revisitada a altas horas da noite, na mesmíssima esquina da Imprensa Nacional com a Escola Politécnica, naquele local onde outrora a "Adolfa" teve os seus momentos de glória e tragédia. Lá está a Boneca de Cera para os taxistas, cantoneiros de serviço ou um ou outro respeitável pai de família da zona, que recebendo um significativo olhar de apreço, logo a seguir, meditativamente pára diante da montra dos Tapetes de Arraiolos. Batida mais uma pestanada em direcção ao interessado que a espera de mãos nos bolsos, a Boneca empresta alguma velocidade à roliça coxa rebarbadora de calçada, a caminho de uma qualquer esquina escura da vida, seguida pelo cavalheiro. Este, de proeminente ventre de quem está satisfeito com a sua sorte de bom pai de família e sócio benfiquista, é um já veterano militante do PS. De boné de presilha na cabeça, bigode queimado pelo Português Suave e indispensável leitura debaixo do braço, desde o Destak ao Record e A Bola, vai ter um momento de aventura, talvez repetindo aquilo que a Boneca já lhe fizera há uns anos num qualquer cinema da Baixa. Esta espécie de Lech Walesa nacional, não vai trair a mulher que em casa o aguarda, porque bem vistas as coisas, a Boneca de Cera em muito a ela se assemelha fisicamente. Apesar disso, bate-a aos pontos em finesse, classe e saber estar na rua e em sociedade. Não cospe para o chão, não regateia com as vizinhas, não manda os filhos para "a puta que te pariu", veste-se melhor e sobretudo, pelos entrefolhos do grosso coxame, não vem aquele cheiro a traineira da Terra Nova a que o sr. J'aquim já se habituou, mas ainda o faz enjoar ao fim de trinta anos.

Ponto que sobreleva todos os outros, diz-se que a Boneca de Cera é boa boca. Uma instituição da Lisboa pré e certamente, pós-socrática. O mais curioso é que ninguém sabe se foi, é, ou alguma vez será puta.


2 commentaires:

Luís Alves da Costa disse...

Acho que depois deste texto, não é preciso escrever nem mais uma linha em Portugal :-)

Tripa Seca disse...

Concordo.

Gostava de ter visto esta personificação do glamour ao vivo.

:-)

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